Frágil vulnerabilidade
Vulnerabilidade
(substantivo feminino)
Do latim vulnerabilis (“que pode ser ferido”) + o sufixo -dade (qualidade, estado).
Qualidade ou estado do que é vulnerável; suscetibilidade de ser ferido, atacado ou prejudicado. Fragilidade; falta de resistência diante de algo que pode causar dano.
Por extensão: condição de quem está exposto a riscos físicos, morais, sociais ou emocionais.
Em resumo, vulnerabilidade significa “a qualidade de poder ser ferido ou prejudicado” — seja física, emocional ou socialmente.
E foi exatamente assim que me senti durante algumas horas “presa” dentro de uma máquina de ressonância magnética.
Sem maquiagem. Sem acessórios. Sem esmalte. Sem alimentação. Sem hidratação.
Era apenas eu.
A armadura maquiada, as roupas, as joias, os apetrechos de beleza — tudo em pausa.
Me deparei comigo mesma. Nua.
Não despida de roupas, mas despida das armaduras que costumo usar para me proteger.
Oriente canta: “Sua maquiagem, suas tatuagens são sua proteção.”
E é mais ou menos assim que me sinto quando me maquio e escolho minhas roupas — como se tudo isso fosse parte de mim.
Mas e quando não tenho nada disso?
Quando só sobra eu mesma, na minha própria pele, com minhas cicatrizes, meus medos e minha essência?
Entre uma batida e outra daquela máquina que continuo achando assustadora, minha mente oscilava entre xingamentos — o exame parecia não ter fim —, mantras e um temporal de criatividade.
Tive diversas ideias dentro daquele túnel do tempo, e uma delas foi justamente sobre a vulnerabilidade.
Eu estava vulnerável.
Completamente despida da armadura que uso em sociedade.
Por longas horas, era eu e eu mesma dentro daquela cápsula ensurdecedora — acompanhada apenas dos meus pensamentos e da insegurança sobre o que os resultados poderiam revelar sobre o meu futuro.
Retornei com a palavra “vulnerabilidade” ecoando dentro de mim.
E, como Clarice Lispector disse: “Perdi muito tempo até aprender que não se guardam as palavras. Ou você as fala, as escreve, ou elas te sufocam”.
Então, cá estou eu, colocando no papel o que essas horas sacudiram dentro de mim.
Por que me senti vulnerável?
Ora, estava sem minha armadura.
E, por algum motivo, em meio ao desespero de esbarrar com o desconhecido, achei que eu não era suficiente.
As cicatrizes não estavam escondidas, os acessórios inexistentes não me traziam aquela dose de poder, e a insegurança se sobrepunha à segurança ilusória que minhas máscaras me dão.
Seria eu, em essência, insuficiente?
Ou é justamente minha alma que me dá garra e coragem — e não a maquiagem?
Me senti exposta a riscos. Me senti frágil.
E, naquele instante — mais uma vez neste mesmo ano —, percebi que eu era apenas um grão de areia em meio à vastidão do universo.
Não somos nada.
O que temos? Nada.
O que vestimos? Nada.
Diplomas e conquistas profissionais? Nadica de nada.
Mas o que somos?
Ah, meu bem… o que somos é tudo o que temos.
A nossa essência — ao contrário do que, por vezes, ilusoriamente acreditamos — é onde reside a nossa verdadeira força.
Eu estava sem minha armadura, mas respirei fundo, entrei na máquina e venci mais um dos monstros que me atormentam.
Fiz tudo isso vestida de mim mesma: com minhas cicatrizes e inseguranças, com meu moletom e minha trança.
Ironicamente, ainda me sentia frágil e minúscula, mas um passo mais próxima de fazer as pazes com a minha vulnerabilidade.
Há uma série chamada Zoey e a Sua Fantástica Playlist em que uma mulher vai fazer uma ressonância magnética e, numa vibe “Sexta-Feira Muito Louca”, acaba ganhando um superpoder.
Não terminei de assistir, mas ela passa a ouvir os pensamentos musicais das pessoas — ou algo assim.
Não era a minha primeira ressonância, mas foi a primeira que fiz sem estar em exacerbação da minha doença autoimune.
Ainda assim, tive medo. Medo baseado em traumas e nas vozes sabotadoras da minha mente.
Talvez, na vida real, aquele trambolho barulhento que escaneou o meu cérebro tenha me dado um outro tipo de superpoder: o de me colocar frente a frente com a minha vulnerabilidade.
Nesse tête-à-tête com ela, descobri muito sobre mim — e um tanto sobre ela.
Percebi que o sentimento de vulnerabilidade surge da ilusão de que estamos protegidos pelas nossas máscaras. Pelas armaduras que vestimos diariamente para enfrentar a vida.
Mas, meus amigos, sinto informar: é pura ilusão.
As nossas armaduras não nos protegem da vulnerabilidade — apenas nos afastam da nossa essência.
Estamos acostumados a parecer alguém que, na realidade, não somos.
Encenamos papéis e personagens que drenam nossa energia e nos empurram cada vez mais para a vulnerabilidade.
Afinal, o ser humano que se afasta de sua essência para encenar um personagem apenas para ser amado… esse sim é o mais frágil de todos.
Eu continuo amando minha maquiagem, minhas tatuagens, meus acessórios — e meus amuletos da sorte.
Mas saí da máquina do tempo percebendo que eu sou tudo isso. E também sou o que existe por baixo disso tudo.
Venci mais um exame — mas, acima de tudo, venci a minha mente.
Abracei a vulnerabilidade e a levei para tomar um café.
Ou talvez, quem sabe, para dançar ao som das batidas da ressonância magnética.
E talvez seja isso: ser vulnerável é, no fundo, ser inteiramente humano.
Ei, obrigada por ter passado por aqui e ter lido a nova publicação da Cartas para alguém! Inscreva-se para receber atualizações e me ajude a espalhar palavras mágicas por aí.




Seus textos são sempre tocantes, de uma forma ou de outra sempre abre espaço para que possamos encaixar em algum ponto de nossas vidas. Obrigado por compartilhar o seu relato. 💛
Esses exames sempre nos faz voltar a doença e perceber como somos vulneráveis. Ainda mais numa sala, despedida, sozinha e com um certo medo. Alma, literalmente, toda despedida 🥲