Aprender a piscar
Um texto sobre cílios, garrafas e perspectivas
Em uma tarde dessas, na pausa entre um projeto e outro, eu estava bebendo água. Nada de especial — só a garrafinha na mão, o corpo seguindo um hábito automático, desses que acontecem enquanto a mente está em outro lugar.
Até que um cílio entrou no meu olho. O que é relativamente comum para mim, que vez ou outra, sempre estou tendo um piripaque com algo que entrou no olho. Heranças da infância, mas essa história fica para outra prosa.
Voltando ao cílio. O danado criou um efeito cascata de reflexões.
Ainda bebendo a água, fechei um olho para despistar o cílio teimoso que pinicava meu olho. Fiquei só com o outro aberto. E, de repente, tudo mudou.
Não era mais apenas um cílio no olho. Era um agente reflexivo.
Com um olho aberto, a garrafa parecia mais longe. O espaço entre mim e ela tinha outra medida. Troquei o olho aberto. Agora, estava mais próxima. O cenário inteiro ao redor se reorganizava, mesmo que nada tivesse realmente se movido.
Como uma criança, comecei a brincar com isso.
Abrir um olho.
Fechar o outro.
Trocar.
Enquanto isso, eu ria do gesto bobo e infantil que havia desencadeado tantos pensamentos pertinentes. Afinal, era o mesmo mundo, mas duas perspectivas distintas. Nenhuma errada. Nenhuma definitiva.
Foi impossível não pensar na vida. Em como tantas coisas parecem distantes demais, inalcançáveis, quando talvez seja só o nosso olhar que esteja rígido demais. A garrafa não saiu do lugar. O mundo não se mexeu. Quem mudou fui eu — ou melhor, o jeito de olhar.
Lembrei de Clarice Lispector, especialmente de Água Viva, e desse estado de presença em que nada precisa acontecer para que tudo esteja acontecendo.
Às vezes, a vida não pede respostas. Pede atenção. Um leve deslocamento do foco, um piscar.
Também recordei do meu pintor favorito, Monet, pintando a mesma paisagem incontáveis vezes — não porque ela mudasse, mas porque a luz nunca era a mesma. O mundo permanecia ali, firme e silencioso, enquanto o olhar se transformava.
Talvez seja isso: nada muda tanto quanto parece. Ou talvez tudo mude, dependendo de como olhamos.
Quantas vezes sofremos acreditando que algo está longe demais, quando na verdade estamos apenas olhando com um olho só?
Quantas certezas se sustentam porque esquecemos de alternar perspectivas?
Desde então, penso que viver também é isso — abrir um olho, fechar o outro, e aceitar que enxergar diferente não significa estar errado. Significa apenas estar olhando de outro lugar. Por outro ângulo, outra perspectiva, outro pensamento.
Talvez a vida não exija grandes mudanças, apenas pequenos ajustes de foco. Um piscar. Um instante de atenção. Como na escrita, como na arte, como em tudo o que realmente importa: às vezes não é preciso ir mais longe. Basta olhar de novo.
“Às vezes, tudo o que você precisa é uma nova perspectiva.”




Que analogia interessante... momentos fugazes que são capazes de nos revelar tanto.
Acho que passamos a vida inteira tentando mudar o cenário quando o que muda mesmo é só de onde olhamos. Ou se olhamos de fato. Quase sempre o que precisa se mover é só nosso ângulo de visão pras mesmas coisas. Adorei como você deixou a reflexão respirar sem forçar conclusão. Obrigado por nos fazer lembrar que às vezes a resposta está somente no jeito de olhar.